sábado, 5 de outubro de 2013

Cataratas de Kaieteur

A CACataratas de Kaieteur 


A Cachoeira Kaieteur, ou Cataratas de Kaieteur está localizada na parte central de Guiana, protegida pelo Parque Nacional Kaieteur. A queda principal tem 226 metros de altura e origina-se no Rio Potaro. A cachoeira é uma das maiores atrações turísticas de Guiana. O Aeroporto Internacional de Kaieteur fica a apenas 6 km da cachoeira, tornando o acesso bem fácil tanto para turistas do país quanto para os de fora. Veja as fotos:














segunda-feira, 10 de junho de 2013

Arraias de água doce estão entre animais mais perigosos da Amazônia


Com cobras e escorpiões, elas lideram acidentes com bichos venenosos. 
Conheça esses animais e saiba o que fazer em caso de ataque.
Iberê Thenório
Do Globo Amazônia, em São Paulo

Bonitas e pouco conhecidas, as arraias de água doce, comuns na Amazônia, figuram entre os animais venenosos que mais causam acidentes na região oeste do Pará. Segundo o Instituto Butantã, elas lideram o ranking de picadas junto com jararacas e escorpiões – animais perigosos já bem conhecidos em outras regiões brasileiras. 

“A arraia tem um ferrão serrilhado na cauda, que entra fácil [na pele] e sai rasgando, machuca bastante. O ferrão é coberto por um muco, com um veneno muito dolorido. Além do veneno, há o problema da sujeira da água, que pode causar infecção. São três problemas diferentes”, explica o biólogo Giuseppe Puorto, diretor do museu biológico do Instituto Butantã. Segundo o pesquisador, os acidentes são sazonais e ocorrem na época seca, pois as arraias costumam viver na areia, no fundo dos rios. 


Arraia-de-fogo 

Vive no fundo dos rios e tem um ferrão serrilhado e pontudo no rabo. 

A ferroada causa um corte profundo, com sangramento, dor, inchaço e infecção. Pode haver apodrecimento da pele. 

Se alguém for ferido, o ideal é lavar o local da picada com água morna, para diminuir a dor. Deve-se procurar um posto de saúde para fazer um curativo e verificar a necessidade de uso de remédios para diminuir a dor e a infecção. 

Para evitar acidentes, é necessário caminhar com cuidado na água, arrastando os pés. Ao descer de barcos, é bom cutucar o fundo do rio com um pau, para espantar o peixe




Escorpião Preto

Pode chegar a 9 cm e tem um ferrão na ponta da cauda. 

A picada é dolorida, mas sintomas como formigamento e sensação de choque elétrico se espalham pelo corpo. O coração dispara e pode haver dificuldade para andar. 

Caso alguém seja picado, deve-se lavar o local com água e sabão. Deve-se manter a pessoa tranquila e levá-la para um hospital rapidamente, para ver se há necessidade de tomar soro. 

Para afugentar o bicho, deve-se evitar o acúmulo de mato ou lixo em volta de casa. Também não se deve colocar as mãos ou pés em buracos, montes de lenha ou troncos podres.


Jararaca 
Tem 1,5 m e é encontrada em várzeas, terra firme e às vezes até dentro das casas. 

A picada causa dor e inchaço, além de manchas roxas e bolhas. Pode haver infecção e apodrecimento da pele no local da picada. 

Em caso de acidente, é necessário lavar bem o local atingido com água e sabão. A pessoa deve ficar calma, com braços ou pernas levantados. A vítima deve ser levada a um pronto-socorro ou hospital para tomar soro antiofídico. 

O melhor jeito de evitar acidentes é andar calçado e evitar de colocar a mão em locais em que a cobra pode viver, como buracos, capinzais, pedras ou montes de madeira. Para afastá-las de perto de casa, deve-se evitar lixo e ratos.


  A FAUNA EXÓTICA DA AMAZÔNIIA


                                                   O Urubu Rei


Sarcoramphus vem da junção dos termos gregos sárx, "carne" e rámphos, "bico" , significando, portanto, "bico de carne". É uma referência aos apêndices que revestem parte de seu bico.
"Urubu" vem do tupi uru'bu . "Urubutinga" vem do termo tupi para "urubu branco.
O maior e mais colorido de todos os urubus recebe este nome por vários motivos: pela exuberante coloração, presente principalmente na cabeça e pelo seu forte bico, que lhe proporciona ser o único urubu a conseguir a abrir as partes mais difíceis de seu alimento, como a carcaça de um animal grande, , sendo capaz de rasgar o couro de um boi ou de um cavalo e até mesmo de um bacalhau. Como é um urubu sociável, frequenta carniça com outros urubus . Quando ele abre uma carcaça, é seguido por outras aves necrófagas, que se aproveitam da carcaça já aberta para se alimentarem. Quando ele não encontra a carniça, espera que outros urubus achem-na, para, então, se alimentar. Essas espécies que o acompanham na alimentação se afastam, devido ao tamanho superior do urubu-rei, dando a ele o aspecto de ser o "rei" entre elas. Essas espécies nunca disputam alimento com ele, esperando respeitosamente que ele se satisfaça para, então, comerem o que sobra.






Descobertas duas espécies de arraias 




Arraias têm proporções corporais únicas e tamanho da cauda




reduzido.


Pesquisadores dizem que há pouco conhecimento científico sobre animais.


Pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá, descobriram duas novas espécies de arraias na amazônia equatoriana. Os animais são tão distintos de outros já conhecidos que foram agrupados em novo gênero, nível de classificação mais abrangente que a espécie.
Pertencentes ao novo gênero Heliotrygon, as espécies de arraia Heliotrygon gomesi eHeliotrygon rosai apresentaram características particulares, como a proporção única do disco corporal, com formato convexo na região do focinho, por exemplo.
As espécies também se diferenciam pelo tamanho reduzido da cauda e por suas cores. Enquanto a Heliotrygon gomesi tem o corpo acinzentado e o dorso marrom, a Heliotrygon rosaitem o dorso marrom e a barriga branca.
Segundo os pesquisadores, essas espécies "incomuns" de arraias evidenciam o pouco conhecimento científico sobre a família a que pertencem. Geralmente, cada espécie de arraia de rio é nativa de uma única bacia hidrográfica. A Amazônia tem elevada biodiversidade do animal.

Poraquê, o peixe-elétrico que mata jacarés com choques de 500 volts



“Aquele que põe para dormir”. Esse é o significado do nome do peixe amazônicoporaquê (Electrophorus electricus). Mas não se engane! Isso não tem nada a ver com canções de ninar. O poraquê é temido pelos ribeirinhos e é capaz de derrubar um cavalo. Mas como isso acontece? Se prepare, porque a resposta é “eletrizante”!
O poraquê possui células modificadas capazes de gerar eletricidade, os eletrócitos. Quando ameaçado, produz uma descarga elétrica que pode chegar a 500 volts, o suficiente para matar um homem adulto.  Ochoque é terrível: os músculos se contraem de forma tão intensa que é impossível controlar os movimentos. Os órgãos internos são danificados, o coração entra em colapso e finalmente para de bater. Essa habilidade lhe rendeu outro nome: peixe-elétrico.



Peixe-elétrico (como o poraquê do Brasil) é uma denominação comum dado às espécies de peixe, quer de água doce, quer deágua salgada, de gêneros diversos, dotados de células especiais em região específica do corpo (parte médio-posterior, até acauda), capazes de gerar diferenças de potencial elétrico e suscetíveis de, por associação em série, desenvolver capacidade de descarga externa total apreciável, a variar de poucas dezenas a muitas centenas de volts, em correntes também variáveis de fração de um a alguns ampères, os valores destas correntes a dependerem da resistência elétrica do receptor (presa aquática ou ameaça potencial ou ser humano em encontro eventual).


As descargas produzidas prestam-se tanto à subsistência alimentar, sendo utilizadas para atordoar as presas das quais o animal se alimenta (geralmente peixes menores), quando à autodefesa do animal em razão de perigo iminente.

A fauna acreana é uma das mais ricas do mundo. Um exemplo disso é esse puraquê, de quase dois metros, que foi abatido em um açude próximo de Rio Branco. O animal, que vive em lagos e igarapés, é conhecido pelas descargas eletrícas que, segundo muitos, é capaz de matar até uma pessoa.
A eletricidade produzida por esses peixes tem a função de orientá-los e promover sua interação social. Eles utilizam o campo elétrico para construir uma rede de comunicação. O macho estabelece sua dominação de acordo com a intensidade da descarga elétrica que libera, o que também atrai a fêmea para a cópula. Para depositar os ovos, ela recebe um estímulo elétrico dos machos que auxilia na produção de hormônios.


 

terça-feira, 9 de abril de 2013

Anaconda gigante é encontrada em Madre de Dios na bolivia


Anaconda gigante é encontrada em Madre de Dios na bolivia Na foto acima, o pescador segura a cabeça do animal já sem vida "Para os aventureiros de plantão! a Anaconda media aproximadamente doze metros de comprimento e foi achada em Madre de Dios na Bolívia. á relatos que três pescadores estão desaparecidos e podem ter sido comidos pela cobra, disse o autor da foto. CONSTRUINDO COM RESPONSABILIDADE anuncie conosco" Pesquisar este blog Carregando... folhadeparnaiba. com. br. -www.folhadeparnaiba.com.br

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Mapas Artigos, Historias Curiosas (O Eldorado)


Mapa Geografico de America Meridional, Cruz Cano y Olmedilla,1790 /
 South America, Seale, 1744 / Gujana, John Lerius, 1556
YES, SIR! EL DORADO É AQUI

No coração da floresta amazônica, reluzia uma cidade com prédios e telhados dourados, habitada por indígenas que tomavam banho de ouro em pó às margens de um lago. Lenda ou verdade? Pesquisas recentes fizeram surpreendentes descobertas sobre a incrível "cidade de ouro", incluindo antigas trilhas incas e fortes de pedra em plena floresta. 

Os brasileiros, entretanto, não têm acesso à novidade: tudo de importante no patrimônio arqueológico de Manoa ou El Dorado foi levado para Londres, com a complacência e ajuda financeira do governo brasileiro, através do INPA - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em 1987. E mais: embora venda bem no exterior, não há editora daqui interessada em publicar o livro que relata a descoberta da cidade, e até as visitas ao local são privilégio de estrangeiros, trazidos através de uma agência de viagens norte-americana.

Os mapas da América do Sul nos séculos 16 e 17 mostram um enorme lago na Amazônia com as legendas "Parime", "Manoa", "Paranapitinga" ou "Mar Branco". Seria aí, nas fraldas de Roraima, que existiu o El Dorado. Sua história remonta a 1532, quando o exército espanhol do conquistador Francisco Pizarro chegou a Cajamarca, no Peru, e aprisionou o chefe índio Atahualpa, representante do deus Sol, exigindo dos nativos um fabuloso resgate para libertá-lo. Muitas mulheres indígenas foram obrigadas a ter relações sexuais com os soldados, dando origem aos índios de pele vermelha e olhos claros, um dos ramos yanomani.

Quando puderam se livrar das garras dos espanhóis, muitas delas seguiram uma trilha que as trouxe ao Brasil, ao norte do Rio Negro, onde passaram a viver e se tornaram as lendárias guerreiras amazonas. Histórias na região do Alto Amazonas dão testemunho da passagem dessas misteriosas "Virgens do Sol" pela floresta e também das viagens organizadas por soldados carregados de ouro procedente de El Dorado; as cargas eram parte do resgate do chefe Atahualpa, que os espanhóis, ao invés de libertarem, assassinaram.

Um fato que intrigava os pesquisadores era por que os mapas deixaram de indicar o lago no decorrer do século 18. Hoje se sabe que ele secou em conseqüência da elevação gradual do seu fundo e a floresta tomou a enorme área antes submersa - hoje está coberta por pastagens. Foi um pesquisador chileno radicado no Brasil, Roland Stevenson, quem descobriu em 1987 a localização exata da até então mítica El Dorado: ficava na Ilha de Maracá, no meio do lago Parime, em Roraima, e não às suas margens, como imaginavam os muitos aventureiros que a procuraram, inutilmente, durante séculos.

Um mês após a notícia correr, chegaram à ilha mais de 200 ingleses, a serviço da Royal Geographic Society em convênio com o INPA. O acesso ao sítio arqueológico foi exclusivo dos britânicos, e os pesquisadores brasileiros tiveram que se contentar com uma pequena área distante, nos arredores. O vigia que fazia o policiamento fluvial de Maracá relatou que "os ingleses tiravam toneladas e mais toneladas de material hermeticamente embalado, enviado de avião para a Guiana Inglesa e daí para Inglaterra". Muitos viram os numerosos caixotes despachados pelo Aeroporto de Boa Vista e que o Itamarati acertou para que não fossem vistoriados.

O vigia acredita que, pelo grande peso dos caixotes e pelo cuidado com que os ingleses os manipulavam, poderiam conter peças de ouro. Questionado, o INPA alegou inicialmente que continham terra para análise na Inglaterra e, posteriormente, que eram "animais empalhados". Stevenson garante que "o resultado dessas supostas análises nunca retornou ao Brasil, como também nenhum estudo considerável e útil".

Recomendo enfaticamente a entrevista de Roland Stevenson para o site Arqueologia Americana, onde esta impressionante denúncia é aprofundada.

Em busca da cidade de ouro de Manoa: entrevista com o explorador Roland Stevenson

Em busca da cidade de ouro de Manoa: entrevista com o explorador Roland Stevenson




Segundo o explorador chileno Roland Stevenson, o povo Inca se abastecia de ouro no atual estado de Roraima, no extremo norte do Brasil.
Neste lugar existia um lago chamado Manoa, no qual havia uma ilha chamada Maracá, de onde justamente os Incas importavam o precioso metal.
Segundo Stevenson, nas margens ocidentais do lago viviam 14 etnias diferentes de indígenas, as quais utilizavam joias de ouro que comercializavam com os Incas.
A primeira expedição que se fez através dos Andes em busca do El Dorado foi organizada por Gonzalo Pizarro, o irmão de Francisco Pizarro.
Gonzalo Pizarro estava seguro de poder encontrar aquela cidade mítica e por conseguinte planejou a famosa expedição de 1541, a qual terminou na maior exploração fluvial de todos os tempos, levada a cabo pelo segundo comandante da viagem, o espanhol Francisco de Orellana, em 1542.
Sem embargo, do El Dorado não se encontrou rastro, dado que Orellana somente pôde navegar pelo rio que batizou Rio Amazonas (por haver visto mulheres guerreiras como as Amazonas da mitologia grega), já que, em primeiro lugar, não tinha os homens nem os meios para empreender uma viagem pelo interior e, em segundo lugar, porque o território era tão extenso, que sua exploração haveria requerido muitos anos.
Não obstante, as mulheres guerreiras eram uma realidade e os relatos indígenas fizeram crer que estas tinham sua própria cidade nas margens de um lago interno.
Nas expedições seguintes, vários aventureiros, a partir de 1584, tentaram chegar àquele lago chamado Manoa (“lago” em língua indígena acháua).
O primeiro explorador que adentrou na selva venezuelana em busca de Manoa foi o espanhol Antonio de Berrío em 1584. Explorou vários afluentes do Orinoco e do Caroní, mas não conseguiu atravessar as montanhas chamadas Pacaraima, mais além das quais os indígenas diziam que se encontrava o lago. Fez inclusive uma segunda expedição em 1591, mas não teve êxito.
O segundo aventureiro que adentrou na selva do Caroní foi o inglês Walter Raleigh, mas tampouco ele logrou o objetivo. De todos os modos, os dados que transmitiu serviram ao inglês Thomas Harriot para desenhar seu famoso mapa de 1599, no qual se localiza o lago, denominado Parime (em língua Caribe significa “grande lago”).
Por outro lado, alguns subalternos de Berrío e Raleigh, como Domingo de Vera e Pedro Maraver em 1593, e Laurence Keymis em 1596, chegaram até o lugar onde hoje está situada aproximadamente a fronteira de Venezuela-Brasil, e ficaram atônitos quando viram que os indígenas utilizavam grandes quantidades de ouro para adornar-se, mas não puderam continuar a viagem por falta de homens e de meios. A última expedição que se aproximou à zona do lago de Manoa foi a do inglês Thomas Roe, a qual também fracassou.
Segundo Stevenson, existia uma estrada pré-colombiana, hoje escondida entre a selva, que desde a atual Colômbia meridional chegava, passando pelo norte do Rio Negro, até o lago de Manoa, no atual estado brasileiro de Roraima, para terminar no litoral atlântico, correspondente ao que hoje é o estado do Amapá.
Este caminho chamado Nhamini-wi é rico em petróglifos que evocam a grande cultura do Peru.
Uma das provas que sustentam esta tese é a de que alguns povos que ainda hoje vivem por essas zonas falam línguas do tipo quéchua, tal como os Incas.
As línguas destes povos, como os Waiapí do Amapá ou os Talipang de Roraima, foram estudadas por eminentes linguistas, como Migliazza, e a tese de Stevenson foi confirmada.
Ademais, em toda a área se encontraram petróglifos que reproduzem alguns símbolos incaicos, por exemplo, o de uma lhama, e também isso incita a pensar que a tese do chileno tem um fundamento de verdade.
Stevenson, em algumas de suas viagens pelo estado de Roraima, encontrou também algumas pedras redondas e dentadas, utilizadas como porretes pelos Incas.
Em suas expedições, no transcurso de 29 anos, Roland Stevenson encontrou, ademais, o famoso lago de Parime, o qual hoje está seco, no lugar que atualmente se chama Lavrado de Boa Vista.
Depois de haver estudado o território, com a ajuda de alguns geólogos, Stevenson verificou que em todas as colinas e montanhas que circundam à savana, pode-se encontrar um sinal recorrente, situado a aproximadamente 120 metros sobre o nível do mar, que indica o nível do antigo lago.
Os geólogos da expedição, Federico Cruz, Salomão Cruz e Gert Woeltye deduziram, junto com o estudo dos solos e do pólen das flores, que a savana era antigamente um lago enorme, que tinha um diâmetro de 400 quilômetros e uma extensão aproximada de 80.000 quilômetros quadrados. Segundo esses investigadores, o lago começou a secar ao redor do começo do século XVI da era de Cristo.
Segundo Stevenson, o lugar exato onde esteve construída Manoa é na parte ocidental do lago, tal como se desenhou nos mapas da época, nas cercanias da ilha de Maracá. Stevenson explorou o lugar de Maracá em 1987 e encontrou restos humanos que provavelmente já haviam sido saqueados no transcurso dos anos.
Durante minha última viagem pela Amazônia, tive a oportunidade de conhecer o explorador chileno Roland Stevenson, que reside na cidade de Manaus desde há muitos anos e que dedicou sua vida à busca do El Dorado de Manoa.
A continuação, o texto da entrevista:
Yuri Leveratto: Senhor Stevenson, você sustenta que os Incas se abasteciam de ouro no lago Parime. Que necessidade tinham os Incas de viajar milhares de quilômetros, do atual Equador até a atual Roraima, para obter o que podiam encontrar no Peru, onde ainda hoje há muito ouro nos rios, por exemplo, no Madre de Dios? E se assim tivesse sido, o que davam em troca às populações de Roraima?
Roland Stevenson: Sim, é certo que no Peru havia muito ouro, mas Roraima era um dos lugares estratégicos, entre alguns outros, para abastecer-se do precioso metal. Em minha opinião, o trocavam por coca ou por animais típicos do Peru, como as lhamas.
Yuri Leveratto: Que evidências encontrou na chamada estrada pré-colombiana?
Roland Stevenson: Muitas. Sobretudo, vários muros de contenção, muitos petróglifos e pictogramas que representam símbolos incas, como, por exemplo, o de uma lhama. Ademais, encontrei alguns objetos tipicamente incaicos, como pedras redondas e dentadas, as quais eram utilizadas pelos Incas como porretes, quer dizer, como armas. Amarrava-se a um extremo de uma haste de madeira e se com essa golpeavam o crânio de um inimigo, podiam matá-lo. Outras evidências da existência do caminho pré-colombiano são as línguas dos povos indígenas que vivem naquela zona, das quais algumas pertencem ao tipo quéchua e, finalmente, meus estudos antropológicos, segundo os quais, com efeito, os povos de Roraima têm características somáticas parecidas às dos Incas.
Yuri Leveratto: Como chegou à conclusão de que o lago Parime existiu realmente?
Ronald Stevenson: Junto com alguns eminentes geólogos examinei, no transcurso de várias viagens, a zona chamada Boa Vista, uma vasta área situada ao norte da atual capital de Roraima. Pudemos verificar que, nas colinas circundantes, existe um claro sinal de demarcação situado a uns 120 metros sobre o nível do mar, que assinala o nível do lago nesse então, posto que agora está seco. Os geólogos da expedição estudaram o pólen das flores que há hoje no fundo do lago extinto e puderam verificar que este se secou a partir de 1300 de nossa era.
Yuri Leveratto: O que encontrou nos arredores do que foi o famoso lago de Parime?
Ronald Stevenson: Durante algumas das viagens que fiz pela zona, especialmente pela ilha de Maracá, encontrei várias tumbas e restos humanos, mas não encontrei nunca joias de ouro. A ilha de Maracá era uma necrópolis e os indígenas da zona sepultavam ali a seus defuntos deixando as joias de ouro sobre os cadáveres, porque suas superstições os impediam de levar consigo os objetos pessoais dos defuntos.
Depois de meus descobrimentos, todo o lugar foi declarado zona de grande interesse arqueológico e as autoridades brasileiras começaram a estudá-las desde um enfoque científico.
Yuri Leveratto: Segundo você, o El Dorado verdadeiro estava situado naquele lugar?
Ronald Stevenson: Sim, mas não era uma cidade pavimentada com ouro como se fantasiava. A palavra El Dorado tem origem espanhola. A zona da ilha Maracá simplesmente era um lugar riquíssimo em jazidas auríferas onde viviam várias tribos indígenas. O ouro foi saqueado com o passar dos séculos posteriores. Ainda hoje se fantasia com que haja uma cidade de pedra nas montanhas vizinhas, mas ninguém a encontrou.
Yuri Leveratto: Segundo você, pode haver existido anteriormente uma cultura amazônica primordial, da qual se originaram depois as distintas etnias?
Ronald Stevenson: Creio que a história do Novo Mundo tal como está, deva ser reescrita. Os primeiros colonizadores da América foram os africanos e não os asiáticos. Depois de meus estudos de antropologia somática, pude constatar que a maioria dos restos humanos achados no continente tem rasgos negroides e não mongoloides como se divulgou erroneamente. Em particular, os Olmecas e o povo que vivia em San Agustín, na atual Colômbia, são provas de minha tese. A mesma migração através do estreito de Bering, segundo minha opinião, é verdade só parcialmente. É provável que alguns povos asiáticos chegaram a América através do atual Alaska (os esquimós), mas eu considero que a maioria dos asiáticos chegou a América pelo mar, desde Japão e China, viajando em barcos rústicos, costeando o continente asiático e posteriormente as terras americanas. Esta migração primordial sucedeu antes da idade de bronze. Os asiáticos chegaram ao Peru e desde esse lugar se espalharam por todo o continente, tanto no Norte como na América do sul. Os descendentes dos asiáticos se mesclaram depois com os descendentes africanos e formaram a que foi a cultura mãe da Amazônia, a mais antiga da América.
Yuri Leveratto: Segundo você, o que há de verdade na crônica de Gaspar de Carvajal, o capelão da expedição de Orellana de 1542? Existiram realmente as Amazonas, as mulheres guerreiras?
Ronald Stevenson: Certamente, as Amazonas na verdade existiram, apesar de que os relatos que as descrevem são, em parte, exagerados. Provavelmente existiram tribos conformadas só por mulheres, e os espanhóis, servindo-se do mito grego das Amazonas, começaram a fantasiar e deste modo, as descreveram com um só seio, quando seguramente isto só fazia parte de um mito. Eu creio que estas mulheres foram as “Virgens do Sol”, mulheres incas que se refugiaram na selva depois dos saques e as violações feitas pelos espanhóis de Pizarro.
Yuri Leveratto: Qual é a etnia que mais lhe interessou no curso de suas viagens?
Ronald Stevenson: A etnia Yanomâmi. Eles creem que se recebem um presente, por exemplo, um machado de ferro, nele há uma parte do espírito de quem a presenteou. Esta é a razão pela qual não me mataram em uma ocasião, porque se o houvessem feito, teriam que abandonar os presentes que lhes dei nas viagens anteriores.
Yuri Leveratto: Qual é a verdadeira origem dos Yanomâmi?
Ronald Stevenson: Os Yanomâmi não são uma etnia de todo “pura”, como muitos antropólogos erroneamente a catalogaram. Ao contrário, eles têm uma origem asiática direta, mas também quéchua (ameríndia) e negroide. Ademais, mesclaram-se depois com caucasoides, quer dizer, com os filhos das mulheres incas que foram violadas pelos espanhóis. Esta é a razão de alguns traços somáticos típicos dos caucasoides, como cabelos loiros e olhos azuis ou verdes. Não se pode esquecer que viveram desde tempos imemoráveis no caminho pré-colombiano e que, portanto, tiveram contato com os chibchas e os quéchuas e posteriormente com os espanhóis que buscavam Manoa.
Yuri Leveratto: Senhor Stevenson, quando iremos ao território dos Yanomâmi? Você sabe que para mim seria difícil e perigoso ir só, mas com você, que tem experiência, a viagem me resultaria mais fácil e poderia aprender muitas coisas.
Ronald Stevenson: Decidi viajar uma vez mais à zona do Pico da Neblina no próximo ano. Se quiser, pode me acompanhar. Verá, os Yanomâmi não são tão violentos como se conta, simplesmente não gostam das fotografias, pensam que lhes roubam a alma fotografando-os. Mas para mim, que amo desenhar, tudo foi mais fácil, meus desenhos lhes causaram curiosidade e assim me fiz amigo. De maneira que se quiser, iremos no próximo ano, está bem?
Yuri Leveratto: Estarei muito contente de ir com você. Muito obrigado pela entrevista e por haver tentado decifrar um dos maiores mistérios de todos os tempos.

YURI LEVERATTO
2008 Copyright
Artigo traduzido por Victor Kawakami

Artigo sobre antigos mistérios Amazônicos (O Eldorado)

El Dorado


Em busca dos antigos mistérios Amazônicos



Em entrevista exclusiva, o pesquisador e artista Roland Stevenson nos revela fatos surpreendentes sobre o mito do El Dorado. A descoberta de uma estrada inca em plena floresta brasileira, o saque sistemático de estrangeiros ao nosso patrimônio cultural e a comprovação da existência do lendário lago Parime, são apenas algumas das polêmicas desta matéria. Seria o ouro inca, proveniente do Brasil? Seria o El Dorado, mais do que uma lenda?

1) Sua nacionalidade é chilena. O que o motivou a mudar-se para o Brasil, em especial o Amazônas?
Desde pequeno, aos 10 anos de idade, tive a sorte de ser influenciado por colegas de bairro que praticavam excursionismo, e a poucos quilômetros de nossa casa em Santiago, eleva-se a Cordilheira dos Andes. Não obstante, no Chile faz muito frio, e não faltou ocasião em que perdido na neve das montanhas, sonhei com um clima tropical.



2) Como foi seu primeiro contato com o mito do El Dorado?
Foi um impacto incrível quando me deparei com os índios yanomani em 1979, observando que alguns deles possuíam rostos semelhantes aos quêchuas do Peru. Então me assaltou a idéia de que talvez a lenda do El Dorado tivesse fundamento histórico, e os yanomani alguma relação apesar dos 1400 km de distância do Império Inca.
3) Você alega que o lendário Lago Parime, que margeava o El Dorado e aparece nos mapas dos séculos XVI e XVII, existiu realmente. Essa tese já foi aceita pelos geólogos?
Sim, está absolutamente comprovado. Três geólogos brasileiros não tem a menor dúvida da sedimentação lacustre do solo do lavrado (planície). A área esteve submersa desde que a ruptura Graben do Tacutú se comunicava com o Atlântico, tendo começado a se extinguir
por volta de uns 700 anos atrás, provocado por um processo chamado epirogénese positivo, de elevação constante da superfície. Os nomes desses geólogos são Gert Woeltje do DNPM (Departamento Nacional de Pesquisas Minerais) do AM; Frederico Guimarães Cruz da SEMACT (Secretaria Especial do Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia) de Presidente Figueiredo, AM; e Salomão Cruz, hoje Deputado Federal em Brasília, DF.





5) Além do lago Parime, você encontrou indícios de um antigo caminho pré-colombiano na região do Amazônas. Como foi essa descoberta?
Em 1977 comecei as pesquisas no Alto Rio Negro, onde fomos em busca das fortificações de pedras a que alguns escritores se referiam, a exemplo de Barbosa Rodrigues. Conseguimos localizá-las através de guias indígenas. Tratava-se de restos de muros de pedras que os nativos brasileiros não costumam utilizar, tornando-se para nós um grande mistério, pois seus vestígios achavam-se invariavelmente a cada 20 km, situados paralelamente à linha equatorial, cerca de uns 60 km. O enigma começou a se desvendar quando achamos próximo de uma delas o petroglifo de uma lhama, animal de carga dos povos andinos. Ao estudar as características deste camelídeo, reparamos que ele caminha somente 20 km por dia, negando-se a continuar além disso. Então, as fortificações eram pousadas de descanso dos viajantes, dispostas em função do rendimento das lhamas. Tratava-se evidentemente de um caminho extinto, apagado pela floresta, exceto os Tambos como chamam as pousadas no Peru. Em contato com diversas tribos da Bacia do Uaupés, ouvimos as lendas a respeito deste caminho, contada pelos velhos de boca em boca através das gerações. Curiosamente todos os grupos indígenas coincidiam com a mesma narrativa, especialmente entre os Dessana, Pirá-tapuya e Tukano, chamando-a de Nhamíni-wi. Explicavam ser um grande caminho que alcançava as montanhas dos Andes, ou a "casa da noite", onde obscurece o sol. Por ele transitavam numerosos "soldados", carregando pesadíssimas caixas contendo "insetos de ouro". Tais caixas não podiam ser abertas porque eram oferendas para que o sol não apagasse. Mas os índios desobedeceram abrindo-as, e o sol se apagou durante vários dias.
Toda essa história parece-nos a lembrança do último capítulo da existência do caminho, quando os espanhóis invadiram o Peru, exigindo o resgate de Atahualpa, representante do Sol. O carregamento de ouro transportado por Ruminháui não chegou ao destino justamente pelo assassinato de Atahualpa. Os insetos de ouro referidos na lenda, seriam simplesmente peças confeccionadas pelos ourives da época, que copiavam a natureza, como borboletas, besouros, aranhas, pássaros, macaquinhos, etc.
O destino do grande caminho para o ocidente nos Andes, já estava resolvido, mas qual era sua origem? De onde vinha procedente do leste? Os tukanos explicavam que ele iniciava-se no "lago branco", ou "lago de leite", axpekõ-dixtara, na língua deles.

6) Foi localizada alguma peça pré-colombiana que ajude a comprovar suas teses?
Creio que as principais peças encontradas que reforçam essa tese, são quatro armas incaicas, achadas em áreas de garimpo de Roraima, consistindo em pedras de 8 pontas e uma de 6, com um buraco no centro para colocar um cabo, afim de quebrar a cabeça do inimigo. Trata-se da borduna mais usual da civilização inca. Este achado muda a história da América, pois até agora foi um mistério a origem do ouro saqueado pelos espanhóis em 1532, no Peru. Apoderaram-se de 6 toneladas de peças auríferas só em Cajamarca e mais do dobro em Cusco. Na época não existiam minas significativas que justificassem tanto ouro no Peru. Inclusive esse foi um dos motivos que fez surgir a lenda do El Dorado.

7) Seria correto afirmar que o El Dorado foi um cemitério pré-colombiano, ou estaria mais para um depósito de ouro?
O El Dorado não era o cemitério, mas os arredores da ilha Maracá, que foi habitada por milhares de indígenas. A especulação de casas de ouro e muros de cristal ficou por conta dos expedicionários que precisavam de verbas para continuarem suas buscas. Contudo, os espanhóis e ingleses tinham fé, porque os indígenas da Guiana usavam adornos auríferos. A escolha da ilha como cemitério, é porque os indígenas tem a superstição de que os espíritos dos mortos não atravessavam a água, especialmente se os rios possuem cachoeiras e corredeiras que fazem barulho, sendo esse o conceito geral dos nativos da região.

8) Quais as fontes históricas que o levaram a desenvolver sua tese?
Todos os expedicionários do final do século XVI acabaram convergindo a Roraima em sua busca, na época considerada como parte da grande Guiana. As fontes históricas principais que indicam tratar-se do lendário lago Manoa ou Parime são, via Orenoco: Berrio (1584); pelo norte, rio Caroni: Berrio (1591), Maraver e Vera (1593) e Raleigh (1595); pelo leste, rio Essequibo: Keymis (1596); e finalmente pelo sul, rio Branco: Roe (1611). Fora isso, as coordenadas indicadas por Juan de Salas (1570) são perfeitas, pois no outro lado das serras que hoje chamamos de Pacaraima, onde nasce o rio Caroni, só existe o lavrado
de Roraima.
9) Como tem sido a recepção da população de Manaus e dos meios de comunicação de sua cidade em relação a pesquisa do El Dorado?
Decepcionante, tomado com arraigado preconceito. Quem procura o El Dorado é louco. Não querem saber se existem ou não fundamentos históricos. E na minha profissão como artista plástico, acham tratar-se de uma tática publicitária para vender quadros. A culpa disso em parte se deve a que alguns amazonenses pagam para que se divulgue serem eles os melhores do mundo. Então, se aparece um atrevido dizendo que descobriu Manoa, já pode se imaginar o resultado. Porém, olhando o assunto com visão profunda, parece tudo formar parte de uma história romântica, pois se desde o começo todos concordassem,
perderia a graça...

10) E como tem sido a recepção do meio científico e acadêmico às suas descobertas?
Quando o arqueólogo Gregory Deyermenjian fez as publicações nos EUA sobre a descoberta do lago, tivemos a tremenda surpresa de que existia uma campanha internacional contra nossas pesquisas, pois esses jornais foram ameaçados e intimados a não apoiar nosso trabalho pela Royal Geographic Society, da Inglaterra...inclusive temos o fax enviado pelo diretor Mr. John Hemming..., sob pena de não mais lhes colaborar com matérias, além de desprestigiá-los. Falava barbaridades caluniosas a meu respeito. Deste modo, compreendemos a reação contraditória dos jornais brasileiros, que negavam-se a divulgar
a descoberta.
O caso remonta a 1987, quando anunciei a possível descoberta do Manoa, indicando que provavelmente o lendário El Dorado se localizaria a ocidente do lago, conforme os mapas de Hondius e Hariot, onde hoje se encontra a ilha Maracá. Um mês depois de meu anúncio, a ilha Maracá foi interditada para pesquisas do "meio ambiente" pela Royal Geographic Society, em convênio com o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). O curioso era que somente os ingleses podiam entrar na ilha. Aos brasileiros era permitido pesquisar somente no lavrado, a partir da ponta da ilha. Existiam sim, "fiscais" brasileiros...era ridículo o controle com tantos britânicos...mais de 200...e umas poucas canoas para todos, além de que, para chegar ao centro da ilha, precisa-se uma expedição de 5 dias com acesso somente por navegação dos dois braços do rio Uraricuera.
Depois de investigar o movimento da ilha e escutar o próprio vigia que fazia o policiamento fluvial de Maracá, conhecido como "Amazônas". Seu nome é Walquimar Felix de Souza, que relatou que os ingleses tiravam toneladas e mais toneladas de material hermeticamente embalado, enviado de avião para a Guiana inglesa e daí para Inglaterra. Existem testemunhas também dos numerosos caixotes que sempre aguardavam embarque no aeroporto de Boa Vista...inclusive quando houve intenções de inspecioná-las, até o Itamaratí se opôs ao exame.
Indagando ao vigia da ilha sobre o conteúdo das caixas, ele expressou desconhecê-lo, porém calculava que seria ouro pelo excessivo peso delas, pois precisavam numerosas pessoas para carregá-las e tendo muito cuidado no transporte porque eram coisas delicadas. O INPA alegou depois que se tratava de terra para análise na Inglaterra. Mas tantas toneladas durante um ano? E ainda delicada? Aliás, o resultado dessas análises nunca retornou ao Brasil, como também nenhum estudo considerável e útil, exceto alguns folders insignificantes que justificassem os Cz$ 14 milhões (dinheiro de março de 1987) gastos no projeto só pelo Governo Federal, segundo explicava o diretor do INPA, cientista Herbert Schubartem, em 1988.
O INPA também esclareceu que as cargas seriam animais empalhados. Mas tantas toneladas assim? Então se trataria da maior matança do século, fugindo a norma da preservação. Igualmente continham herbários dissecados e insetos, mas nunca vi insetos e folhas tão pesados!
Ante tanta ingenuidade, decidi denunciar os ingleses nos jornais, especialmente pelo fato de que seu diretor John Hemming não era um naturalista e sim um historiador.
Ele escreveu um livro, "Em busca do El Dorado", onde na página 203 descreve nitidamente que numa ilha do lago eram enterrados os defuntos com todos seus pertences auríferos. No ato que fiz a denúncia, revelando tudo nos jornais, os 200 ingleses desapareceram do mapa, abandonando o Brasil, talvez pensando que as autoridades tomariam alguma providência, mas não aconteceu absolutamente nada. E nem eu fui processado por calúnia, conforme se chegou a divulgar. Foi fácil livrar-se de um louco visionário...
Futuramente, daqui a algumas gerações, quando os museus da Inglaterra mostrarem o que foi levado da ilha, constará que John Hemming foi o descobridor material dos objetos, mas não o espiritual, porque cientificamente eu fui o primeiro a anunciar a descoberta, e se alguém registrar estes acontecimentos, os ingleses ficarão como estratégicos huaqueros (ladrões de túmulos), o que aliás, já eram antes disso, como aconteceu no Egito, Gibraltar, Canadá, Peru...

11) Então, toda a imprensa estrangeira foi contra suas descobertas? Não houve reação favorável?
Houve reações muito boas, sim, especialmente se não existe o preconceito. Qualquer protesto ou contestação surge somente pela falta de conhecimento. Desde modo, quando o jornal The Herald (Flórida, EUA) dedicou seu suplemento dominical às pesquisas, o arqueólogo consultado expressou que as lhamas não poderiam sobreviver na Amazônia para vir buscar os minérios pelo caminho pré-colombiano. Contrariando sua contestação, existe em Manaus um criador de lhamas na fazenda São Salvador, km 16 da BR 010. Elas estão perfeitamente aclimatadas, e todos os anos são expostas nas exposições agropecuárias.
Em 1988 fiz uma exposição de arte e pesquisas em Viña del Mar, no Chile, tendo uma excelente acolhida pelos jovens, que achei muito abertos às novas propostas, tanto que o principal jornal do Chile, El Mercurio, dedicou sua revista de Domingo às descobertas. O Brasil não fica por menos na classe jovem, pois recentemente a Universidade do Amazônas fez uma exposição sobre meu trabalho, tendo uma excelente receptividade, embora não faltou algum protesto pelo fato de eu não possuir um diploma acadêmico. Para equilibrar essa falha, apresentei um painel com minhas distinções em que constam três prêmios em concursos mundiais e dois nacionais, além dos regionais. Aliás, sou o único artista de Manaus que possui essa qualificação.
12) Você poderia citar alguns dos profissionais, nacionais e estrangeiros, que já trabalharam na sua equipe?
Os profissionais que posso citar foram, desde o começo, o missionário Casimiro Beksta, professor de antropologia aplicada do CENESC (Centro de Estudos do Comportamento Humano) de Manaus, a quem cito com muito carinho porque teve a paciência de me orientar todos esses anos dos problemas antropológicos da Amazônia.
Depois a arqueóloga carioca Arminda Souza, na época funcionária do SPHAN (Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Porém, influenciada pelo preconceito dos "especialistas" de Manaus, sobre minhas pesquisas não convencionais, especialmente na busca do "ilusório" lago do El Dorado, preferiu ficar de fora, perdendo a chance de figurar para a posteridade histórica do Brasil, como participante da grande descoberta de Manoa.
Também desde o começo, vinha me orientando o geólogo Frederico Guimarães Cruz, na época funcionário do DNPM de Manaus. Já em 1986 trocávamos opiniões sobre uma grande mancha escura existente em Roraima, detectada pelos mosaicos aéreos do RADAMBRASIL. Pelo que indagamos se trataria dos vestígios de um lago. Frederico frisou que para isso deveria haver marcas d'água nas rochas. Assim, nos primeiros dias de janeiro de 87, lancei-me a investigar. Tendo como resultado o já citado encontro com os sinais do nível d'água do grande lago, embora isto achava-se na terra mesmo e não nas rochas. O Dr. Fredi é um homem de caráter e personalidade, jamais se importou com o preconceito do povo, tanto que me honrou fazendo o prefácio de meu livro. Em função disso, quando o Brasil conseguir romper a barreira do desconhecimento, ele será lembrado como participante da descoberta desse lago extinto, o lendário Manoa.
Em 1987, entrou o geólogo roraimense Salomão Cruz, irmão do governador Getúlio Cruz, na época. O Dr. Salomão era diretor da CODESAIMA, tornando-se um ativo colaborador, fornecendo-nos uma toyota da empresa para pesquisas. Seus conhecimentos da região ajudou-nos significativamente ao afirmar de forma categórica a constituição lacustre do lavrado, não tendo dúvidas de que a área esteve submersa. Embora não havia conhecimento de quantos lagos se trataria. Coube a nós, com altímetro na mão, percorrer centenas de km, seguindo as marcas do nível da água até a Guiana, constatando que pertencia somente a um lago, independente das diferenças estruturais do solo.
A seguir foi a vez do geólogo Gert Woeltye, na época professor da FUA (Fundação Universidade do Amazônas), assim como funcionário do DNPM de Manaus. Quem percorreu o lavrado de Roraima junto com numerosos alunos, fazendo aula in-loco sobre a extinção do lago. Tivemos a honra de que todos seus dados técnicos sobre o lago, foram inseridos em nosso livro.
O último profissional participante foi o arqueólogo norte-americano Gregory Deyermenjian, que nos acompanhou numa expedição a Roraima em 1997, constatando os problemas geológicos e históricos de Roraima. No retorno aos EUA, fez uma palestra no centro principal do Explorer Club em Nova York, e Expedition News de Connecticut.
13) Além de sua equipe, existe alguma outra interessada na região, seja ela nacional
ou não?

Não existe equipes interessadas, exceto pessoas independentes que leram meu livro, assim vieram me acompanhar nas expedições dois norte-americanos, um alemão, um canadense, dois italianos, um espanhol e uma equipe de TV chilena, todos com profissões diferentes, desde cineastas até aventureiros. Ano passado houve muito interesse da Discovery Channel sediada na Flórida, porém o propósito "murchou", provavelmente porque devem ter pedido informações a Royal Geographic Society, que são os patronos internacionais da Discovery.
Em 1994 veio a TV nacional do Chile, do programa "El Mirador", em função da publicação do jornal Folha de São Paulo (27/05/93) que lançou uma reportagem de um louco chileno...eu...que procurava o El Dorado na Amazônia, frisando que a comunidade científica de Manaus (o INPA), ironizava meu trabalho. Assim, a TV chilena veio correndo a filmar seu patrício que buscava o "sonho do El Dorado". No começo fiquei animado porque seria a oportunidade de mostrar fundamento histórico no assunto. Mas foi grande a minha decepção ao ver que eles desejavam mesmo o SONHO, negando-se a filmar qualquer prova que representasse a realidade. Assim, descartaram as marcas d'água do lago nas serras, como também as centenas de petroglifos da ilha Maracá. Por minha insistência, entrevistaram o geólogo Salomão Cruz em Boa Vista, que deu numerosos argumentos científicos sobre a existência do lago, mas isso tudo foi eliminado.
Outra tentativa de filmar os vestígios do lago foi com a TV Amazônas Canal 5, em 1993. Consegui convencer de sua realidade ao diretor Sr. Felipe Daou. Porém quando chegamos na área, o câmera da equipe se negou a filmar alegando que aquilo não prestava para TV, revelando todo o preconceito que existia sobre mim. Para piorar a situação, a malária estava manifestando-se no meu organismo. Fiquei sem ânimo para discutir. Portanto, perdemos a viagem, as despesas com hotel, etc...e o que foi pior, fiquei desprestigiado perante o diretor da TV. Estava "confirmado" que eu "sonhava".
14) Quais as principais dificuldades que tem encontrado para a realização de suas expedições?
O preconceito e a falta de dinheiro. Felizmente sou um bom pintor, e os lucros tenho investido em pesquisas. Assim, durante 20 anos financiei minhas próprias expedições. Nunca procurei patrocínio, pois quem iria financiar a busca de uma "fantasia"? Porém, com as dificuldades econômicas que o país está passando, já não posso mais me dar ao luxo de pagar viagens, de modo que esta última expedição de fevereiro foi financiada por um norte-americano, e a anterior por dois italianos e um canadense.


15) Isso vem de encontro a minha próxima pergunta. Você é um excelente pintor, então suas obras ajudam de certa forma seu trabalho de pesquisa...
Sim! A arte tem me ajudado enormemente nas pesquisas. Sem ela jamais teria feito essas descobertas. Tudo começou com os yanomami, quando desenhava centenas de rostos, reparando que os antropólogos estavam errados ao defini-los como uma raça única, geneticamente "pura", em circunstâncias que possuem quatro tipos humanos diferentes e integrados em épocas distintas, se estudarmos os protótipos que colonizaram a América.
A verdade é que a análise anatômica das feições indígenas é um campo inexplorado pela antropologia, pois a classificação dos grupos tribais no Brasil baseia-se na glotologia (língua). Porém os silvícolas são nômades e adotam as línguas alheias da região onde se mudam, alguns até várias vezes como aconteceu com os baníwas do rio Içana. Outro método de distinção é a cultura, material ou espiritual, mas estas, do mesmo modo que a língua, podem ser adotadas, impostas ou perdidas. A terceira fórmula é a mais perfeita, que consiste nos teste de DNA, porém nada é infalível, pois para ser satisfatória é necessário testar em laboratório milhares de indivíduos e ainda podem orientar errado se trata-se de migrações onde não nasceram.

16) Em 1994, você publicou o livro "Uma Luz nos Mistérios Amazônicos", atualmente esgotado. Fale-nos mais sobre esse trabalho.
O livro foi o prêmio de publicação no concurso de História da SUFRAMA (Superintendência da Zona Franca de Manaus), ganho em 1988. Porém, pensando na posteridade, é bom que se conheça a verdade, pois a comissão julgadora me deu o segundo lugar inicialmente, porque a obra fugia da temática histórica, incluindo geologia e antropologia. Mas pergunto, como ia explicar a existência do lago sem os dados geológicos? Ou como ia esclarecer a origem dos nativos amazônicos sem informações étnicas?
O leitor precisa saber que todos os aventureiros, pesquisadores, cronistas, etc, que escreveram sobre o Amazônas, basearam-se numa rápida expedição de dias, semanas ou meses, falando muito e estudando pouco. Assim, nossas investigações com mais de 20 anos, devem estar bem perto da verdade.

17) Em 1997, você fundou o "Parime Expedition - Centro de Pesquisas Etno-históricas".
Quais os objetivos dessa instituição?

A "Parime Expedition" ficou parada quando percebi que a instituição viraria um órgão turístico, que não é a modalidade que me interessa. Para essa finalidade, um dos norte-americanos que me acompanhou na última expedição, Mark DeMaraville, que trabalha com turismo, começará a trazer na próxima temporada, pacotes turísticos para grupos que desejem conhecer onde ficava o lendário lago do El Dorado. Assim, os norte-americanos ficarão conhecendo a realidade histórica antes que os brasileiros, lamentavelmente. O mesmo acontecerá com a segunda edição do meu livro, pois recentemente tenho visitado numerosas empresas e todas se manifestaram impossibilitadas de patrocinar uma nova impressão, exceto se fosse sobre o "Boi Bumbá", que aliás já fizeram na minha frente duas grandes obras. Não nego a beleza das festas, mas não houve um critério que preservasse a cultura original indígena.
O norte-americano DeMaraville...que também é bibliotecário de Massachusett... opinou que nosso livro "Uma Luz nos Mistérios Amazônicos" é a melhor obra já feita no mundo sobre o
El Dorado. Respeito muito sua opinião como bibliotecário, mas só posso lamentar que não vai ser impresso no Brasil.

18) Uma última pergunta. Você foi um dos precursores no Brasil, da técnica de investigação conhecida como 'morfologia somática". Do que consiste essa técnica?
Pratico desenho da figura humana desde que tinha 4 anos de idade, portanto fazem 63 anos, e comecei profissionalmente quando tinha 12, em 1947, fazendo rostos publicitários para a Fonck Propaganda no Chile. O que desejo transmitir é que uma vida inteira retratando feições, me possibilitam enxergar coisas que uma mente comum é incapaz de ver. Por exemplo, numa caveira, detecto toda a anatomia superficial. Do mesmo modo, o rosto de um indígena me conta todo seu passado, as miscigenações, os climas onde morou, as migrações, etc. Se isso for aliado ao estudo dos povos que habitaram o planeta, resulta fácil entender suas ligações.
Quando há mais de 20 anos comecei minhas pesquisas antropológicas, detectei logo que os primeiros colonizadores da América eram negros, assunto que foi tomado como um disparate. Recentemente, os arqueólogos de São Paulo admitem agora como se fosse descoberto por eles. Minha tese dos paleoíndios serem negróides foi apresentada publicamente no concurso de História da SUFRAMA em 1988.
Muitas pessoas me perguntam porque não tiro um diploma como antropólogo, mas a minha formação vai além disso, não posso recuar numa qualificação superada. Não existe diploma para 60 anos de prática.


sexta-feira, 27 de julho de 2012

As Crônicas de Akakor (Parte II) as moradias subterrêneas


As Crônicas de Akakor  Parte II 


AS MORADIAS SUBTERRÂNEAS - Grande era o conhecimento dos Primitivos Mestres e grande era a sua sabedoria. A sua visão alcançou as colinas, planícies, florestas, mares e vales. Eram seres milagrosos. Conheciam o futuro. A verdade fora-lhes revelada. Perspicazes, eram capazes de grandes decisões. Ergueram Akanis, Akakor e Akahim. Na verdade, os seus trabalhos eram poderosos, como o eram os métodos que usavam para os criar: a maneira como determinaram os quatro cantos do universo e os seus quatro lados. Os senhores do cosmo, seres do céu e da terra, criaram quatro cantos e quatro lados do universo.
Akakor agora está em ruínas. A grande entrada de pedra está destruída. Cipós crescem no Grande Templo do Sol.
Por minha ordem, e de acordo com o Supremo Conselho e os sacerdotes, os guerreiros Ugha Mongulala destruíram a nossa capital há três anos. A cidade teria traído a nossa presença perante os Bárbaros Brancos e, assim, nós abandonamos Akakor. O meu povo fugiu para os abrigos subterrâneos.
A última dádiva dos Deuses. Temos treze cidades, profundamente ocultas nas montanhas que se chamam Andes.
O seu plano corresponde à constelação de Schwerta, a pátria dos Antigos Pais. A Baixa Akakor fica no centro. A cidade fica assentada numa caverna gigantesca feita pelo homem. As casas, ordenadas em círculo e contornadas por uma muralha decorativa, têm no centro o Grande Templo do Sol. Tal como na parte superior de Akakor, a cidade está dividida por duas ruas em cruz, que correspondem aos quatro cantos e aos quatro lados do universo. Todas as estradas lhes são paralelas. O maior edifício é o Grande Templo do Sol, com torres que sobem além dos edifícios onde estão instalados os sacerdotes e os seus criados, do palácio do príncipe, das instalações dos guerreiros e das mais modestas casas do povo. No interior do templo há doze entradas para os túneis que ligam a Baixa Akakor com outras cidades subterrâneas. Têm paredes inclinadas e um teto liso. Os túneis são suficientemente largos para comportar cinco homens lado a lado. Qualquer das outras cidades fica a grande distância de Akakor.

Doze das cidades – Akakor, Budo, Kish, Boda, Gudi, Tanum, Sanga, Rino, Kos, Amam, Tata e Sikon – são iluminadas artificialmente. A luz altera-se de acordo com o brilho do Sol. Só Mu, a décima terceira e a menor das cidades, tem altas colunas, que atingem a superfície. Um enorme espelho de prata espalha a luz do Sol sobre toda a cidade. Todas as cidades subterrâneas são cruzadas por canais que trazem água das montanhas. Pequenos afluentes fornecem edifícios individuais e casas. As entradas na superfície estão cuidadosamente disfarçadas. Em caso de emergência, os subterrâneos podem ser desligados do mundo exterior por grandes rochas móveis que servem de portões.

Nada sabemos da construção da Baixa Akakor. A sua história perdeu-se na escuridão do mais remoto passado. Mesmo os soldados alemães que viveram com o meu povo não conseguiram esclarecer este mistério. Durante anos mediram os subterrâneos dos Deuses, exploraram o sistema de túneis e procuraram o sistema de respiro, mas sem terem o mínimo êxito. Os nossos Primitivos Mestres construíram as habitações subterrâneas de acordo com os seus próprios planos e leis, que nos são desconhecidos.
Daqui governavam o seu vasto império, um império de 362.000.000 de indivíduos, tal como se afirma na Crônica de Akakor:

E os Deuses governaram Akakor. Governaram sobre os homens e sobre a Terra. Tinham navios mais rápidos que o vôo das aves, navios que atingiam os pontos a que se destinavam sem velas nem remos, tanto de dia como de noite. Tinham pedras mágicas por onde viam a distância, de modo que podiam ver cidades, rios, colinas, e lagos. Tudo quanto acontecia na Terra e no Céu se refletiam nessas pedras. Mas as habitações subterrâneas eram as mais maravilhosas. E os Deuses deram-nas aos seus Servos Escolhidos como última dádiva. Para os Primitivos Mestres são do mesmo sangue e têm o mesmo pai.

Durante milhares de anos, as habitações subterrâneas protegeram os Ugha Mongulala dos seus inimigos e suportaram duas catástrofes. Os ataques das tribos selvagens não tinham êxito contra os seus portões. No interior, os últimos homens da minha raça esperam a vinda dos Bárbaros Brancos, que avançam pelo Grande Rio, num número infinito, tal como formigas. Os nossos sacerdotes profetizaram que em última análise descobrirão Akakor e que nela encontrarão a sua própria imagem. Então o circulo fechar-se-á.

II - A HORA ZERO



10.481 A. C. – 10.468 A. C.



O velho épico hindu Mahabharata conta como os Deuses e os Titãs lutaram para ter o domínio da Terra. De acordo com Platão, o lendário império da Atlântida atingiu o seu ponto mais elevado neste período. O cientista germano-boliviano Posnansky acredita na existência de um enorme império na região da cidade boliviana, agora em ruínas, de Tiahuanaco. Segundo a opinião de alguns historiadores e etnólogos, as principais divisões raciais do Homo sapiens da última época glacial desenvolveram-se cerca de 13.000 a. C.: Mongóis na Ásia, Negros na África e Caucasianos na Europa. As principais fixações no continente europeu encontram-se nas regiões costeiras. As descobertas arqueológicas de Altamira e da Amazônia confirmam pela primeira vez a existência de humanos no continente sul-americano.

A PARTIDA DOS PRIMITIVOS MESTRES



A história do meu povo, registrada na Crônica de Akakor, aproxima-se do seu fim. Os sacerdotes afirmam que dentro em pouco se passará o tempo; pouco mais temos que alguns meses. Então o destino dos Ugha Mongulala será cumprido. E quando vejo o desespero e a miséria do meu povo não posso deixar de acreditar nestas profecias. Os Bárbaros Brancos estão penetrando cada vez mais no nosso território. Vieram do leste e do oeste como um fogo assoprado por um forte vento e espalharam um manto de escuridão sobre o país, para o poderem dominar. Mas se os Bárbaros Brancos pensassem, chegariam à conclusão de que não podemos apoderar-nos do que não nos pertence. Então compreenderiam que os Deuses nos deram uma grande mansão para a partilharmos e a gozarmos. Mas os Bárbaros Brancos querem ter tudo só para si. Os seus corações são duros, não se comovem, mesmo quando realizam as mais terríveis ações. Assim, nós, os Índios, temos de nos afastar, e ter esperança de que os nossos Primitivos Mestres possam um dia voltar, tal como está escrito , com boas palavras e numa escrita clara:

No dia em que os Deuses abandonaram a Terra chamaram Ina. Deixaram a sua herança ao servo de maior confiança: “Ina, vamo-nos embora para os nossos lares. Ensinamos-te sabedoria e demos-te bons conselhos. Voltamos para junto dos que são iguais a nós. Vamos para casa. O nosso trabalho está feito. Os nossos dias de viver aqui, acabados. Conserva-nos na tua memória e não nos esqueças. Porque somos irmãos do mesmo sangue e temos o mesmo pai. Voltaremos quando estiverdes ameaçados. Mas agora fique com as Tribos Escolhidas. Levem-nas para as moradias subterrâneas, para as proteger da catástrofe que se aproxima”. Estas foram as suas palavras. Isso foi o que eles disseram quando se despediram. E Ina viu como os navios os levavam para o céu, com fogo e trovões. Desapareceram por cima das montanhas de Akakor, e só Ina os viu partir. Mas os Deuses deixaram atrás de si um rastro de sabedoria e bom senso. Eram considerados e venerados como se fossem sagrados. Eram um sinal dos Antigos Pais. E Ina reuniu os mais velhos do seu povo num Conselho e disseram-lhes quais tinham sido as últimas instruções dos Deuses. E ordenou uma nova contagem do tempo para comemorar a partida dos Primitivos Mestres. Esta é a história escrita dos Servos Escolhidos, A Crônica de Akakor.

Na hora zero (10.481 a. C., segundo o calendário dos Bárbaros Brancos) os Deuses deixaram a Terra. Deram o sinal de um novo capítulo na história do meu povo. Mas nessa época nem sequer Ina, seu mais leal servo e primeiro príncipe dos Ugha Mongulala, previa os terríveis acontecimentos que se sucederiam. O Povo Escolhido estava angustiado com a partida dos Primitivos Mestres e atormentado pelo desalento e pela angústia.

Só a imagem dos Deuses ficou nos corações dos Servos Escolhidos. Com olhos ardentes, perscrutavam o céu, mas os navios dourados não voltavam. Os céus mantinham-se vazios – nem a mínima brisa, nem qualquer som. O céu conservava-se desabitado.

A LINGUAGEM DOS DEUSES



Na língua dos Bárbaros Brancos, Ugha significa “aliado”, “partidário”; Mongu significa “escolhido”, “exaltado”, e Lala significa “tribos”. Os Ugha Mongulala são as Tribos Escolhidas Aliadas. Uma nova era iniciou-se para eles depois da partida dos Primitivos Mestres. Os Deuses superiores já não governam o seu império, cujos limites ficavam a muitas luas de distância. Os Ugha Mongulala governavam entre dois oceanos, ao longo do Grande Rio, até as baixas colinas do norte, e mais além, na extensão das planícies do sul. Os 2.000.000 que compreendem as Tribos Escolhidas governaram um império de 362.000.000 de pessoas, desde que os Primitivos Mestres dominaram as outras tribos no decorrer dos séculos. Os Ugha Mongulala governaram vinte e seis cidades, muitas fortificações poderosas e as habitações subterrâneas dos Deuses. Só três complexos de templos – Salazere, Manoa e Tiahuanaco – ficavam de fora da sua jurisdição, por explícitas instruções dos Antigos Pais. Ina, o primeiro príncipe dos Ugha Mongulala, tinha a seu cargo enormes tarefas.

Conheço poucos pormenores acerca do período que se seguiu à partida dos Primitivos Mestres. A primeira Grande Catástrofe estende-se como um véu sobre os acontecimentos dos primeiros treze anos da história do meu povo. De acordo com os sacerdotes, Ina governou o maior império que jamais existiu. Este era chefiado pelos Ugha Mongulala, que faziam com que as suas leis fossem obedecidas. Os seus guerreiros protegiam as fronteiras dos ataques das tribos selvagens. 362.000.000 de aliados prestavam-lhes vassalagem, mas depois da primeira Grande Catástrofe revoltaram-se contra as leis dos Ugha Mongulala. Rejeitaram os legados dos Deuses e dentro em pouco esqueciam a sua língua e a sua escrita. Degeneraram.

O quíchua, como os Bárbaros Brancos chamam à nossa língua, consta de simples e boas palavras, que são suficientes para descrever todos os mistérios da natureza. Nem sequer os Incas conhecem a escrita dos Deuses. Há mil e quatrocentos símbolos, que têm diferentes significados, segundo a sua seqüência. Os sinais mais importantes traduzem a vida e a morte, representadas pelo pão e pela água. Todos os inícios da crônica começam e acabam com estes símbolos. Depois da chegada dos soldados alemães, em 1942, de acordo com o calendário dos Bárbaros Brancos, os sacerdotes começaram a registrar os acontecimentos também na escrita das Tribos Aliadas. Língua, serviço da comunidade, veneração pelas pessoas idosas e respeito pelo príncipe são as coisas mais importantes documentadas anteriormente a primeira Grande Catástrofe. São evidência de fato, nos dez mil anos da sua história, o meu povo ter só uma finalidade: preservar o legado dos Primitivos Mestres.


SINAIS OMINOSOS NO CÉU - Houve estranhos sinais no céu. A penumbra cobriu a face da Terra. O Sol ainda brilhava, mas havia uma névoa cinzenta, grande e intensa, que começava a esconder a luz do dia. Estranhos sinais viam-se no céu. As estrelas eram como tristes pedras. Uma neblina venenosa cobria as colinas. Um fogo malcheiroso pendurava-se nas árvores. Um Sol vermelho. Um caminho cruzado sobrepunha-se. Negro, vermelho, todos os quatro cantos do mundo estavam vermelhos. A primeira Grande Catástrofe alterou a vida do meu povo e a face do mundo. Ninguém pode imaginar o que aconteceu naquela época, treze anos depois da partida dos Primitivos Mestres. A catástrofe foi enorme, e a nossa crônica relata-a com terror: Os Servos Escolhidos ficaram temerosos e aterrorizados. Já não viam o Sol, a Lua ou as estrelas. A confusão e a escuridão reinavam por toda à parte. Estranhas imagens passavam sobre as suas cabeças. Do céu caia resina, e ao entardecer os homens desesperavam em busca de comida. Matavam os seus próprios irmãos. Esqueceram o testamento dos Deuses. Começara a era do sangue.

O que aconteceu nesta época, quando os Deuses nos deixaram? Quem foi o responsável que fez regredir o meu povo ao abatimento durante seis mil anos? Uma vez mais, os nossos sacerdotes podem interpretar os acontecimentos devastadores. Dizem que no período antes da hora zero existiu também outra nação de deuses que eram hostis aos nossos Primitivos Mestres. De acordo com as imagens do Grande Templo do Sol de Akakor, as estranhas criaturas pareciam-se com humanos. Tinham muito cabelo e uma pele avermelhada. Tal como os homens, tinham cinco dedos nas mãos e nos pés. Mas dos ombros saiam-lhes cabeças de serpentes, tigres, falcões e outros animais. Os nossos sacerdotes dizem que estes deuses também governaram um enorme império. Também possuíam o conhecimento que os tornava superiores aos homens e iguais aos Primitivos Mestres. As duas raças de deuses que estão representadas nas imagens do Grande Templo do Sol de Akakor começaram a guerrear-se. Queimaram o mundo com calor solar, e cada um tentou tirar ao outro o seu poderio. Iniciou-se uma tremenda guerra entre os planetas e esta guerra levou o meu povo à perdição. No entanto, pela primeira vez, a providência dos Deuses salvou os Ugha Mongulala . Recordando as últimas palavras dos nossos Primeiros Mestres, que anunciavam a catástrofe, Ina comandou a retirada para as moradias subterrâneas.

Reuniram-se os mais velhos do povo. Obedeceram às ordens de Ina. “Como poderemos nos proteger? Os sinais estão cheios de ameaças”, diziam eles. “Vamos seguir as ordens dos Deuses e albergar-nos nos abrigos subterrâneos. As nossas idéias não serão suficientes para toda uma nação? Nenhum de nós deve faltar”. Foi assim que eles falaram. Foi assim que eles decidiram. E a multidão reuniu-se. Atravessaram as águas. Desceram as ravinas e cruzaram-nas. Chegaram ao fim, onde as quatro estradas se cruzam, na moradia dos Primitivos Mestres, protegidos no interior das montanhas.

Isto é uma história contada pela Crônica de Akakor. E assim se cumpriu a ordem de Ina. Com confiança na promessa dos Primitivos Mestres, o povo de Ugha Mongulala mudou-se para a Baixa Akakor, para se proteger da iminente catástrofe. Aqui ficaram eles até a Terra se aquietar, tal como uma ave se esconde atrás de uma rocha quando a tempestade se aproxima. Os Ugha Mongulala estavam salvos da catástrofe porque haviam confiado nos Antigos Pais.

A PRIMEIRA GRANDE CATÁSTROFE



O ano 13 (10.468 a. C., segundo o calendário dos Bárbaros Brancos) é um ano fatídico na história do meu povo. Depois de se terem refugiado nos subterrâneos, a Terra foi atingida pela maior catástrofe de que há memória. Excedeu mesmo a segunda Grande Catástrofe, seis mil anos mais tarde, quando as águas do Grande Rio inundaram a região. A primeira Grande Catástrofe destruiu o império dos nossos Primitivos Mestres e matou milhares de pessoas.

Isto é o relato de como os homens morreram. O que aconteceu à Terra? Quem a fez tremer? Quem fez dançar as estrelas? Quem fez as águas brotarem das rochas? Numerosos eram os flagelos que atingiam os homem. Estava sujeito a várias calamidades. Estava terrivelmente frio e um vento gelado soprava sobre a Terra. Estava excessivamente quente e a própria respiração das pessoas queimava-as. Homens e animais fugiam em pânico. Desesperados, corriam de um lado para o outro. Tentavam trepar nas árvores, mas as árvores repeliam-nos. Tentavam alcançar as cavernas. Contudo, estas abatim-se e sepultavam-nos. O chão tornava-se teto, e o teto desaparecia nas profundidades. O som e a fúria dos Deuses não se acalmavam. Até os abrigos subterrâneos começaram a tremer.

A primeira referência da forma do continente antes da primeira Grande Catástrofe reporta-se à partida dos Primitivos Mestres. Depois desse tempo, diferia consideravelmente da sua forma atual. Era muito mais fria e a chuva caía regularmente. Os períodos de seca e de chuva eram mais distintos uns dos outros. Ainda não havia grandes florestas. O Grande Rio era menor e desaguava em ambos os oceanos. Os afluentes ligavam-no ao lago gigante, onde os Deuses erigiram o templo de Tiahuanaco, na costa sul.


A primeira Grande Catástrofe remodelou a face da Terra. O curso dos rios foi alterado e a altura das montanhas e a força do Sol modificaram-se. Os continentes ficaram inundados. As águas do grande Lago voltaram ao oceano. O Grande Rio foi cortado por uma nova montanha e agora corre apressadamente para leste. Enormes florestas surgiram nas suas margens. Um calor úmido espalhou-se pelas regiões orientais do império. A oeste, onde se ergueram montanhas gigantescas, as pessoas gelavam no tremendo frio das altitudes. A Grande Catástrofe causara tremendas devastações, tal como fora predito pelos Primitivos Mestres.


E a mesma coisa acontecerá na futura catástrofe, que os nossos sacerdotes calcularam de acordo com a rota das estrelas. Porque a história da humanidade cumpre-se segundo rotas preestabelecidas: tudo se repete, tudo volta num ciclo que dura seis mil anos. Os nossos Primitivos Mestres ensinaram-nos esta lei. Passaram-se seis mil anos desde a última Grande Catástrofe e seis mil anos se passaram desde que os nossos Primitivos Mestres nos deixaram pela segunda vez. Mais uma vez apareceram nos céus sinais ominosos. Os animais fogem em pânico. Surgem guerras. As leis são desrespeitadas. Enquanto os Bárbaros Brancos, por pura arrogância, destroem o elo entre a natureza e o homem, aproxima-se o cumprimento do destinado. Eles sabem-no e esperam com resignação. Porque acreditam no legado dos seus Primitivos Mestres. Com a imagem dos Deuses no coração, seguem-lhes as pegadas. Seguem os que são do mesmo sangue e tem o mesmo pai.


III- A ERA DA ESCURIDÃO



10.468 A. C. – 3.166 A. C.


O cientista germano-boliviano Posnansky calcula que Tiahuanaco foi destruída cerca de 10.000 a. C. Os geólogos referem-se às extraordinárias modificações de clima que podem ter sido causadas pela deslocação do eixo da Terra. A Época Neolítica, que começou por volta de 5.000 a. C., viu importantes inovações culturais, acrescentadas por transformações econômicas de longo alcance: a transição para a agricultura e para os sistemas econômicos produtivos. O homem neolítico cultivava cereais selvagens e criava carneiros, cabras e porcos. Instalaram-se grandes famílias em aldeias e mais tarde em cidades fortificadas. Entre 8.000 e 6.000 a. C., Jericó foi considerada como estágio preliminar das altas civilizações urbanas, embora os egiptólogos suspeitem de uma cultura mais antiga no vale do Nilo. Descobertas arqueológicas em Eridu e Uruk referem-se aos primeiros edifícios sagrados. Encontraram-se as primitivas placas de argila. Palavras e sinais fonéticos substituíram a primitiva escrita pictórica. Em todas as civilizações se observa um considerável cuidado com os mortos. Vários dilúvios e catastróficas erupções vulcânicas, provavelmente cerca de 3.000 a. C., são descritos na Bíblia como o Grande Dilúvio. A América do Sul continua a ser colonizada por vagas de imigrantes vindos da Ásia.

O COLAPSO DO IMPÉRIO



Verdadeiramente, os Bárbaros Brancos são um povo poderoso. Governam o céu e a terra e são ao mesmo tempo ave, verme e cavalo. Pensam que estão vendo a luz, mas, no entanto, vivem na escuridão e no mal. E o pior é que negam o seu próprio Deus e lutam eles próprios serem deuses e para nos fazer acreditar que governam o mundo. Mas os Deuses são ainda maiores e mais poderosos que todos os Bárbaros Brancos juntos. Ainda são eles que decidem quem, entre nós, deve morrer e quando. Tranqüilidade, sol, água e fogo servem-nos primeiro. Porque os Deuses não permitem que descubram os seus segredos. Os nossos sacerdotes dizem que farão um julgamento que libertará os Bárbaros Brancos do fardo dos seus erros. Cairá uma chuva contínua que, lavando, tirará toda a escuridão dos seus corações. As águas subirão cada vez mais e lavarão a maldade e a ambição do poder e da riqueza. Tal como acontecera já há mil anos, tudo isto foi registrado na crônica com boas palavras e numa escrita clara:

Três luas passaram e três vezes três luas. Então as águas dividiram-se. A Terra acalmou de novo. As correntes seguiram diferentes cursos. Perderam-se por entre as colinas. Altas montanhas se ergueram em direção ao Sol. A Terra modificou-se quando os Servos Escolhidos deixaram as moradias subterrâneas, e grande foi a sua mágoa. Ergueram o rosto para o céu. Os seus olhos procuraram as planícies, os rios e os lagos. A verdade era terrível; a destruição medonha. E Ina reuniu o Conselho dos Velhos. As Tribos Escolhidas juntaram dádivas: jóias, mel das abelhas e incenso. E sacrificaram-nos para fazer com que os Deuses voltassem à Terra. Mas o céu manteve-se vazio. A era do jaguar começara: época de sangue quando tudo foi destruído. Assim foi separado o elo entre os Primitivos Mestres e os seus servos. E principiou uma nova vida.

Os anos de sangue, o período entre o ano 13 e o ano 7315, é a mais escura época na história do meu povo. A Crônica de Akakor não se refere a estes acontecimentos. Durante milhares de anos não há registros de qualquer espécie. A transmissão oral também é pobre e entremeada com escuras profecias.

Foi uma época medonha. O selvagem jaguar veio e devorou carne humana. Esmigalhou os ossos dos Servos Escolhidos. Arrancou as cabeças dos seus servos. A escuridão envolveu a Terra.

Depois da primeira Grande Catástrofe, o império ficou numa situação desesperadora. As moradias subterrâneas agüentaram os terríveis desmoronamentos e nenhuma das treze cidades foi destruída, mas muitas das vias que ligavam os limites do império ficaram bloqueadas. A sua misteriosa luz extinguira-se como uma vela assoprada pelo vento. As vinte e seis cidades foram destruídas por uma tremenda inundação. Os recintos dos templos sagrados de Salazere, Tiahuanaco e Manoa ficaram em ruínas, destruídos pela terrível fúria dos Deuses. As patrulhas enviadas trouxeram a notícia de que muito pouco das Tribos Aliadas haviam sobrevivido à catástrofe. Obrigados pela fome, abandonaram as suas velhas instalações e penetraram no território dos Ugha Mongulala, trazendo atrás de si a morte e a perdição. Desespero, desânimo e miséria espalharam-se por todo o império. Travaram-se renhidos combates nas últimas regiões férteis. O domínio das Tribos Escolhidas chegara ao fim.

Este foi o início do inglório fim do império. Os homens haviam perdido a razão. Andavam nos campos com as mãos pelo chão. Tremiam de medo e terror. Estavam abatidos. Tinham o espírito confuso. Atacavam-se uns aos outros como animais. Matavam o seu vizinho e comiam-lhe a carne. Na verdade, foram épocas horríveis.

O terrível período entre a primeira e a segunda Grande Catástrofe, de 10.468 a.C. a 3.166 a. C., segundo o calendário dos Bárbaros Brancos, trouxe o meu povo até a beira da extinção. Tribos degeneradas que haviam sido aliadas dos Ugha Mongulala antes da primeira Grande Catástrofe fundaram os seus próprios impérios. Derrotaram os exércitos dos Ugha Mongulala e fizeram-nos recuar até as portas de Akakor no nosso ano de 4.130.

As tribos dos Degenerados formaram uma aliança. Disseram: “Como podemos nós tratar com os nossos primitivos chefes? Na verdade, eles ainda são poderosos”. De modo que se reuniram em conselho. “Façamos uma emboscada e matemo-los. Não somos mais numerosos? Não somos mais que suficientes para os vencer?” E todas a tribos se armaram. Juntaram-se em grande número. A massa dos seus guerreiros estendeu-se mais longe do que os olhos podiam alcançar. Queriam tomar Akakor de assalto. Marcharam em formação para matar o príncipe Uma. Mas os Servos Escolhidos tinham-se preparado Mantiveram-se no cume da montanha. O nome da montanha era Akai. Todas as Tribos Escolhidas se haviam reunido junto de Uma quando os Degenerados se aproximaram. Vinham gritando, com arcos e setas. Cantavam canções de guerra. Berravam e assobiavam metendo os dedos na boca. E assim precipitavam-se contra Akakor.

Neste ponto A Crônica de Akakor é imprecisa. Os nossos sacerdotes contam que os Ugha Mongulala perderam a batalha e Uma morreu. Os sobreviventes retiraram para as suas habitações subterrâneas. A derrota na montanha de Akai representa o ponto mais baixo da infelicidade do meu povo. Tal como os Bárbaros Brancos, que negam os Deuses e se consideram para além das leis, os Ugha Mongulala arrastaram-se cada vez mais na humilhação. Confundidos com este incompreensível acontecimento, começaram a adorar árvores e rochas, até mesmo a sacrificar animais e seres humanos. Cometeram então o mais vergonhoso crime dos dez mil anos da história do meu povo.


E eis como aconteceu. Quando Uma foi morto na batalha contra as Tribos Degeneradas, o grande-sacerdote recusou que o seu filho Hanan entrasse nos secretos recintos dos Deuses e sem o respeito devido aos Antigos Pais, começou a governar o povo como considerou melhor. Estávamos no ponto máximo da era do sangue, época em que era chefe o selvagem jaguar.


Porque sofreu o meu povo estes crimes? Porque é que os mais velhos toleraram a má conduta do grande-sacerdote? Só há uma explicação. Depois da partida dos Deuses, só certas pessoas tinham consciência da sabedoria dos Primitivos Mestres. Os sacerdotes já não transmitiam os seus conhecimentos. Ensinavam a história dos Antigos Pais só aos de grande confiança. O seu poder tornava-se maior à medida que desaparecia o seu sagrado legado. Dentro em pouco só eles se sentiam responsáveis pelos acontecimentos da terra e do céu. Durante milhares de anos, os sacerdotes governaram onipotentes os Ugha Mongulala. Isto é o que contam os nossos antepassados. E deve ser verdade, porque só a verdade se mantém através do tempo na memória do homem.

A SEGUNDA GRANDE CATÁSTROFE



Terrível é a história. Terrível é a verdade. Os Servos Escolhidos ainda viviam nas habitações dos Deuses – seis, mil anos. O sagrado legado havia sido esquecido. A sua escrita tornara-se ilegível. Os seus servos tinham traído o combinado com os Deuses. Viviam para além de todas as fronteiras como animais da floresta Andavam com as mãos e os pés no chão. Cometiam-se crimes à luz do dia. E os Deuses sentiam-se com estas atitudes. Os seus corações enchiam-se de tristeza devido à maldade do homem. E disseram: “Castigaremos o povo. Arrancá-lo-emos da terra - homens e gado, vermes e pássaros do céu – porque desprezaram o nosso legado”. E os Deuses começaram a destruir o povo. Enviaram uma poderosa estrela, cuja cauda vermelha cobria todo o céu. E enviaram fogo mais vivo que um milhar de sóis. O grande julgamento começou. Durante treze luas caiu chuva. As águas do oceano subiram. Os rios corriam às avessas. O Grande Rio transformou-se num imenso lago. E o povo foi destruído. Todos morreram afogados no terrível dilúvio

Os Ugha Mongulala sobreviveram à segunda Grande Catástrofe da história da humanidade. Protegidos nas habitações subterrâneas dos seus Primitivos Mestres, observando a destruição da Terra com temor. Enquanto os Servos Escolhidos sabiam que estavam inocentes da primeira Grande Catástrofe, agora se acusavam como responsáveis pelo segundo terrível acontecimento. Surgiram lutas e querelas. Rompeu uma guerra civil na Baixa Akakor, que levaria o meu povo à extinção se não tivesse acontecido o que desde há muito era previsto pelos sacerdotes. Quando a necessidade era premente, os Primitivos Mestres voltaram.


E o seu regresso abre um novo capítulo na história dos Ugha Mongulala, o segundo livro da Crônica de Akakor. O primeiro livro acaba com os feitos de Madus, um corajoso guerreiro dos Ugha Mongulala, que, mesmo nos momentos mais difíceis, não perdera a fé no legado dos Deuses, tal como se escreve na crônica.

Madus atreveu-se a seguir a estrada que leva à superfície da Terra. Sem recear nem tempestades nem água, ele continua o seu caminho. Olha com tristeza o país devastado. Não via nem pessoas nem plantas – só animais e aves assustadas que voavam sobre o infinito lençol de água, até que cansadas caíam. Isto viu Madus. E ficava ao mesmo tempo triste e irritado. Arrancou tocos de árvores do solo inundado. Juntou madeira flutuante. Construiu uma jangada para auxiliar os animais. Arranjou um casal de cada dois jaguares, duas serpentes, duas antas e dois falcões. E as águas que subiam elevavam mais a jangada para as montanhas, no cume do monte Akai, a montanha de destino das Tribos Escolhidas. Aqui, Madus deixou os animais irem para a terra e os pássaros voarem. E quando, depois de treze luas, as águas baixaram e o sol desfez as nuvens, voltou para Akakor e narrou o fim da terrível era do sangue.